Era uma vez uma menina chamada Luma que morava numa vila junto ao pé das montanhas. A vila não era grande, mas tinha risos, cores e histórias antigas que pareciam sussurros das árvores. O segredo mais doce, porém, estava acima das nuvens: uma camada de nuvens que brilhava como algodão-doce, onde o vento era professor e a chuva, música sábia para quem quisesse ouvir.
Desde pequena, Luma sonhava em subir e construir um lugar entre as nuvens, onde crianças pudessem brincar sem pressa, onde as pontas das pontes fossem madeiras de caramelo e onde o sol desenhasse castelos de luz. Mas todos diziam que era impossível: as nuvens eram frias, rápidas e inalcançáveis. Ainda assim, Luma colecionava suspiros de vento, pedacinhos de arco-íris e histórias de pipa que dançavam no céu.
O enigma do guarda-nuvens
Um dia, ao voltarem da escola, Luma encontrou um anel de metal enferrujado que brilhava como uma pequena lua. No interior, gravado, havia um mapa antigo que parecia apontar para uma crista das nuvens chamada Guarda-Nuvens. Conduzida pela curiosidade, ela seguiu o mapa até o alto das Montanhas de Marfim, onde o ar era doce e o silêncio, musical. No topo, encontrou um velho guardião feito de vento: uma figura translúcida, com olhos que pareciam janelas para o céu:
— Quem é você que procura o impossível? — perguntou o guardião com voz de chuva suave.
— Sou Luma, e procuro um lugar onde as crianças possam brincar entre as nuvens sem medo e sem fome de tempo, disse ela.
O Guarda-Nuvens riu, não de zombaria, mas de alegria. — O impossível não é o que parece. O céu guarda segredos que só os sonhadores conseguem ler. Se você provar que o seu coração é verdadeiro, poderá ter uma cidade entre as nuvens, mas precisará de três coisas: coragem, bondade e uma colher de vento.
A colher de vento
O guardião entregou a ela uma pequena colher de madeira que possuía uma mancha azul no cabo. — Esta é a Colher de Vento. Não a use para agarrar o vento, mas para colher o que ele traz: histórias, desejos e bons sonhos. Quando o vento sentir que você quer compartilhar, ele se aproximará e ajudará a erguer o que for da sua bondade.
De volta à vila, Luma começou a reunir amigos. Havia Jonas, que consertava brinquedos, Aisha, que contava histórias para crianças pequenas, e Bento, que desenhava mapas de lugares que ainda não existiam. Juntos, iniciaram a construção de uma ponte de cordas que ligava o topo das árvores mais altas da aldeia à primeira camada de nuvens. Cada passo era uma lição: dividir o pão, ouvir sem interromper, celebrar o sucesso dos outros. A cada gesto de bondade, a Colher de Vento brilhava um pouco mais, como se aprovasse cada ato de cuidado.
A corrente de coragens
Os contos de Luma logo se espalharam pela vila. Crianças passaram a observar o céu não como um vazio, mas como um lugar cheio de possibilidades. Os adultos, inspirados, começaram a construir pequenas plataformas de madeira para facilitar a chegada aos primeiros degraus da ‘Cidade das Nuvens’. Cada plataforma tinha um espaço para que alguém pudesse ler, cantar, ou simplesmente observar o horizonte. A Colher de Vento garantiu que cada sonho fosse compartilhado, e não usado para ganhos egoístas.
Chegara o dia de provar que o sonho não era apenas sonho. A vila toda se reuniu na praça central, onde uma corda elástica foi amarrada entre a última árvore e um ponto visível no céu, marcando o início da travessia. Luma, com a Colher de Vento na mão, deu o primeiro passo, segurou firme o bastão de madeira que alguém lhe dera para o caminho, e começou a subir. Não foi fácil: o vento insistia em empurrá-la para baixo, como se quisesse provocá-la a desistir. Mas, lembrando-se da bondade que a guiava, ela sorriu para seus amigos, que acenavam com força, e continuou.
As nuvens que falavam
Enquanto subia, as nuvens pareciam sussurrar segredos do céu. Algumas eram macias como algodão, outras eram frias como gelo. Em cada camada, havia uma história: de um vento que carregava memórias, de uma chuva que pintava o mundo de prata, de um raio que fazia música nas montanhas. Luma percebeu que não estava apenas construindo uma cidade entre as nuvens; estava aprendendo a ouvir o céu. E ouvir, na verdade, era a habilidade mais necessária para que a cidade fosse estável: cada nuvem precisava de respeito, cada vento, de direção clara.
Conforme subia, Luma ajudou a erguer o primeiro bairro entre as nuvens. Chovinho—um garotinho feito de gotas—criou um lago de água no chão da primeira casa, para que as crianças pudessem brincar sem se molhar. Um vento gentil soprou para criar uma brisa constante, que mantinha a temperatura agradável. As casas eram feitas de cascas de coco, painel de bambu e telhados de folhas grandes, que filtravam a luz do sol em padrões dançantes. Tudo parecia ter saído de um sonho de infância, mas ali, de fato, existia.
Desafios e soluções
Nem tudo foi perfeito. Um dia, uma tempestade inesperada ameaçou desfazer as pontes. Os moradores ficaram em pânico, pensando que a cidade iria desabar. Luma reuniu a todos e lembrou a eles que o segredo da cidade não era apenas a construção, mas a convivência: cada pessoa tinha uma função, e cada função protegia o conjunto. Bento ajustou os nós das pontes; Aisha ensinou as crianças a cantar para acalmar o coração e a mente; Jonas reparou as ferramentas. Com a colaboração de todos, a tempestade passou, e a cidade ganhou uma nova camada de resiliência, mais estável do que antes.
Com o passar das estações, o Festival das Nuvens tornou-se uma tradição. A cada ano, as crianças escolhem uma história para contar aos guardiões do céu, que respondem com ventos que empurram as nuvens de modo que formem desenhos no firmamento. Luma aprendeu que o festival não é apenas sobre beleza, mas sobre memória: cada desenho no céu recorda um momento de coragem, amizade ou compaixão vivida na vila. O evento se tornou uma ponte entre o chão e o alto, entre o presente e o que sonhamos para o futuro.
A lição que o céu ensina
Com o tempo, Luma percebeu que a verdadeira cidade não era apenas a estrutura entre as nuvens, mas a rede de pessoas que a mantinha viva. A Colher de Vento, que um dia fora símbolo de curiosidade, tornou-se símbolo de responsabilidade: não basta pegar o vento; é preciso devolvê-lo em forma de cuidado, partilha e esforço coletivo. A cidade entre as nuvens ensinou que os sonhos crescem quando são nutridos pela bondade e pela cooperação. E, acima de tudo, que o céu não é o limite, é o espaço onde começamos a imaginar as coisas que, com trabalho e amizade, podemos transformar em realidade.
Anos passaram. Luma, agora mais sereena, ainda subia às nuvens, mas não como uma criança em busca de aventura, e sim como a guardiã de uma comunidade que aprendeu a viver em equilíbrio com o céu. Quando alguém pergunta como tudo começou, ela sorri, aponta para a cidade entre as nuvens e diz: “O céu não precisa de poupança de sonho; precisa de gente que compartilhe os sonhos.” E as crianças, olhando para o horizonte, entendem que cada passo que dão na direção do impossível é, na verdade, um caminho para tornar o mundo mais gentil.
Um legado no céu
Hoje, a Vila das Raízes, como passou a ser chamada, continua a crescer entre as nuvens. Existem interseções de riso, bibliotecas de vento, jardins de espuma onde os gatos brincam de perseguir borboletas de luz. A cidade no céu não é apenas um lugar; é um lembrete de que os sonhos, quando cultivados com bondade, podem se tornar moradas para todos. E, no final, quem sabe, você também pode encontrar uma Colher de Vento, não para agarrar o vento, mas para agradecer por cada brisa que te lembre de que ainda há muito céu para explorar.








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